VOCê SE SENTE NERVOSO OU ANSIOSO? EXPERIMENTE DANçAR

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The Washington Post - Não sei se teria conseguido passar os últimos dois anos sem dançar – dançar com muita vontade e energia. Todo mundo enfrentou desafios pandêmicos. Entre os meus se encontraram: passar duas semanas de quarentena no hotel para chegar ao meu pai doente na Austrália, morar com ele pela primeira vez como adulta e, depois de voltar aos Estados Unidos, pegar covid-19, com meses de recuperação. Ao longo desse processo, eu punha meus fones de ouvido e dançava.

Não era uma coisa bonita de se ver: muitas vezes eu começava em silêncio, com calma, depois ficava doida, batendo os punhos com raiva, até meus ombros ficarem doloridos. Também ficava girando até ficar tonta, me jogava de um lado para outro, tremia o corpo todo, chorava e batia os pés no chão.

Mesmo que tivesse certeza de que tudo parecia meio estranho, eu tinha de botar os meus sentimentos para fora – e funcionou. Dançar me fez sentir aliviada, relaxada e até mesmo contente de um jeito que não conseguia nadando ou correndo. Essas atividades só esgotavam meu corpo, mas a dança limpava meu coração e aquietava minha mente também.

Não sou só eu: um pequeno, mas crescente corpo de pesquisa sugere que a dança pode fornecer mais benefícios para o humor do que outros tipos de exercícios aeróbicos.

Embora 30 minutos de atividade de bombeamento cardíaco por dia sejam uma maneira bem conhecida de tonificar os músculos, fortalecer o cérebro envelhecido e melhorar o humor, estudos sugerem que a dança – de quase qualquer tipo – pode ajudar a reduzir a dor crônica e a ansiedade (mais do que exercícios aeróbicos genéricos). Um estudo revelou que a dança diminuiu a depressão em universitários. E mesmo que a pesquisa sobre terapia de dança e demência ainda seja limitada, vários estudos apontam que ela pode melhorar ou estabilizar a qualidade de vida em pessoas com Alzheimer e ter um efeito positivo no “desempenho cognitivo, físico, emocional e social” dos que têm demência.

Mas por que a dança funciona além dos benefícios de qualquer bom exercício aeróbico? Especialistas em dançaterapia dizem que ela pode fornecer um espaço para expressar aspectos de nossa personalidade que podem estar enterrados ou desencorajados por motivos pessoais ou culturais (como raiva, para as mulheres).

“Nós guardamos todas as experiências que já tivemos no nosso corpo, então conseguir se mover pode liberar algo que estávamos escondendo em algum músculo”, conta Angela Grayson, psicóloga clínica e presidente da Associação Americana de Dançaterapia. “O músculo tem memória e, quando nos mexemos, podemos liberar essa memória.”

A terapia de dança e movimento (DMT, na sigla em inglês) se baseia na ideia de que a dança pode fazer parte do processo terapêutico como uma forma de comunicação não verbal. Ela combina alguns dos efeitos positivos e bem conhecidos que o exercício oferece à saúde mental com algo mais profundo, que pode ser útil quando a terapia falada não está funcionando. A dança é conexão e expressão, lembra Jacelyn Biondo, pesquisadora do Departamento de Terapias de Artes Criativas da Drexel University.

“Se cinco pessoas andarem de bicicleta, vai parecer meio igual. Mas, se cinco pessoas diferentes dançarem, vai ter muita variação, porque elas estão se expressando”, afirma.

SAÚDE MENTAL

Biondo, que também é terapeuta de dança e movimento, garante que viu a terapia de dança ajudar pessoas que lutavam contra depressão e ansiedade. Mas sua experiência vem do trabalho com pacientes com sintomas agudos de esquizofrenia em hospitais psiquiátricos. Nesse contexto, ela observa que a dança pode ser uma boa ferramenta terapêutica.

Em estudo de 2021, Biondo e colegas descobriram que esquizofrênicos que faziam terapia de dança tiveram diminuição nos sintomas (incluindo alucinações auditivas, paranoia e pensamento delirante), quando comparadas com um grupo controle de pacientes que faziam apenas terapia falada. Essas pessoas também mostraram melhora na expressão emocional e redução do sofrimento psíquico.

Grayson acredita que a dançaterapia pode funcionar para muitas condições de saúde mental. Ela recomenda terapia de dança e movimento para pessoas que tiveram partos traumáticos e crianças com dificuldade em expressar sentimentos. A terapia também pode beneficiar pessoas em lares de idosos, prisões e centros de tratamento de dependências.

“Trabalhando com um terapeuta de dança e movimento formado, você ganha apoio para processar o que está sendo expresso na dança e estabelecer um tratamento.”

Assim como eu, muitas pessoas descobriram os efeitos da dança para o bem-estar fora do ambiente terapêutico. Prefiro dançar sozinha, com o simples objetivo de botar meus sentimentos para fora, mas surgiram opções sociais em todo o país.

A Ecstatic Dance organiza danças em grupo em cidades de todo o mundo, com eventos em lugares fechados ou ao ar livre. É uma prática especificamente não verbal, então os dançarinos se expressam com batida, movimento e respiração. Em Venice Beach, Los Angeles, dançarinos descalços usam fones de ouvido para ouvir música tocada por DJs em evento semanal.

A 5Rhythms guia os praticantes por cinco estágios de movimento. A prática pode ser uma maneira de lidar com a dor, a raiva e o estresse. Lucia Horan dá aulas online e presenciais de 5Rhythms no Esalen Institute em Big Sur, Califórnia, e prepara professores. Embora tenha lecionado por mais de duas décadas, Horan descobriu que dançar a ajudou a lidar com os problemas e se curar do próprio conjunto de estresses pandêmicos: fugas de incêndios florestais devastadores na Califórnia e dois abortos espontâneos.

A CURA. Ela também fez terapia falada, meditação e trabalho de trauma, mas avalia que “a beleza da dança é que ela aborda todos os quadrantes de cura – o físico, o emocional, o mental e o espiritual”. Horan fala que este é um dos motivos pelos quais a dança funciona para muita gente – mas também porque força as pessoas a se concentrarem no momento presente, o que pode trazer alívio de preocupação, tristeza e dor emocional.

“Muito do sofrimento acontece quando estamos pensando no passado ou no futuro, repassando as coisas na cabeça”, narra Horan. “Mas a dança é uma prática baseada na presença, então nossa atenção é atraída para o momento presente.”

Especialistas dizem que, se você não quer participar de um programa terapêutico, e só tentar a dança em casa, não precisa de equipamento especial e pode vestir o que quiser. Basta abrir um espaço grande o suficiente para permitir um movimento expansivo, colocar uma música que você adora e começar a se mexer. Não há regras sobre o que ouvir ou como dançar.

E qualquer pessoa pode participar: segundo Horan, em suas aulas online já apareceram pessoas acamadas em tratamento contra o câncer, e todos os especialistas ressaltam que cadeirantes, pessoas incapazes de andar, cegas ou doentes também podem participar – porque a dança é para todo mundo, mesmo que for para mover apenas as mãos ou os braços.

“É só ficar no momento presente e começar a se mexer”, ensina Horan. “Dance até que o corpo desapareça e fique apenas a dança.” Depois, sente-se um pouco e fique com o corpo quieto. O movimento exterioriza e libera o estresse. A meditação abre espaço para a integração.

A pandemia tem sido um momento emocionalmente difícil, e muitos de nós ainda estão sofrendo. Horan conclui que a dança é uma maneira de “ouvir a verdade do corpo e permitir que ela seja explorada em todos os seus opostos – ela nos dá liberdade, nos dá permissão, nos dá um caminho”. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

2022-11-26T08:11:18Z dg43tfdfdgfd